2019 – Pequenas Cidades e Ambiente

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Pequenas Cidades e Ambiente (da Idade Média à Época Contemporânea)

 

Realiza-se em Castelo de Vide (Portugal), entre 14 e 16 de março de 2019, o colóquio internacional Pequenas Cidades e Ambiente (da Idade Média à Época Contemporânea). A sua organização resulta da iniciativa conjunta da Rede das Pequenas Cidades no Tempo, do município de Castelo de Vide, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (Instituto de Estudos Medievais, Centro de Humanidades, Instituto de História Contemporânea) e da École des hautes études hispaniques et ibériques (Casa de Velázquez, Madrid), através do programa CIDADES.

 

A proposta temática deste colóquio parte do princípio de que o «ambiente» (no duplo sentido de «meio natural» e «espaços que rodeiam uma localidade») oferece às pequenas cidades (como a toda a organização humana) amenidades, possibilidades a aproveitar, provavelmente também constrangimentos, sobretudo para as sociedades das épocas antigas. Em sentido inverso, as pequenas cidades têm um impacto sobre este ambiente, tanto no interior da aglomeração como no território circundante. Apreender e explorar as amenidades, por um lado, tomar consciência dos constrangimentos e dos impactos e elaborar soluções para os retificar, por outro, dizem tanto respeito à esfera do político (e por isso do cultural, englobando os aspetos religiosos), quanto à esfera económica.

Sabe-se que a história ambiental, assim reivindicada, desenvolveu-se em primeiro lugar nos Estados Unidos, em princípios dos anos 1970 (fundação da revista Environmental History Reviewen, em 1976, e da American Society for Environmental History, em 1977). Esta nova área implementou-se na Europa nos anos noventa (em 1995, Richard Grove lançou, em Inglaterra, a revista Environment and History e a European Society for Environmental History foi fundada em 1999). Entretanto, na Alemanha, Joachim Radkau refletia sobre a combinação entre a ecologia e as relações de poder (Radkau, 2000). Em França, a corrente da história ambiental tem vindo a exprimir-se, a partir de 2009, em números especiais de revistas.  Também em Portugal e em Espanha a historiografia não se manteve alheia a este domínio de estudos, como os recentes projetos de investigação o demonstram.

Mantendo-se, durante bastante tempo, uma área de investigação privilegiada do período contemporâneo, chegaram depois à história ambiental os historiadores da primeira modernidade (XVI-XVII) e, mais tarde ainda, os medievalistas. Foram publicadas recentemente sínteses sobre as evoluções epistemológicas e historiográficas (Fressoz et alii, 2014; Quénet, 2014; Guimarães, Amorim, 2016; Ortega, 2016) com predomínio nas épocas moderna e contemporânea, mas, também, lançando um olhar aos tempos medievais (Hoffmann, 2014; Mouthon, 2017).

A nossa proposta situa-se na confluência – que nos parece inédita – de dois campos de pesquisa recentes: história ambiental (Delort, Walter, 2001; Burke, Pommeranz, 2009), particularmente história ambiental urbana (Bernhardt, 2001; Massard-Guillebaud, 2007) e estudo das pequenas cidades (Poussou, Loupès, 1987; Clark, 1995; Costa, Andrade, Tente, 2017).

Assim, se a história ambiental urbana figura num capítulo de cerca de 40 páginas na obra de Quénet (Quénet, 2014), está ausente a categoria das pequenas cidades, da mesma forma que se mantém a parente pobre da maioria das obras mais especializadas … E no entanto, muitas monografias urbanas sobre pequenas e médias cidades integram passagens, mais ou menos desenvolvidas, que parecem filiar-se na história ambiental urbana e constituem um tesouro rico mas disperso e de difícil acesso.

É assim legítimo perguntar se as interrogações relativas ao desenvolvimento da historiografia ambiental das metrópoles e das grandes cidades são pertinentes quando aplicadas à categoria das pequenas e médias unidades, que representam a maioria dos centros urbanos. Para além disso, haverá neste âmbito, questionamentos específicos sobre as pequenas e médias cidades? Equacionar a categoria «pequena cidade» contribuirá para o debate levantado no seio da comunidade de historiadores do ambiente, desde as suas origens nos Estados Unidos: o ambiental é apenas o natural, o selvagem, o rural? Situado na interseção do urbano e do rural, o objeto «pequena cidade» e a reflexão sobre os lugares centrais, nesta como noutras problemáticas historiográficas, obrigam a rever categorias e taxonomias e tendem a sustentar o paradigma de um continuum mais do que de um sistema binário (Fray, 2006).

Apresentamos alguns exemplos não exaustivos.

No que se refere à presença da «natureza» na cidade, os avanços são ainda tímidos: salientaríamos a presença da água (Deligne, 2003; Fournier, 2007), de campos, jardins, vinhas e pomares; o mesmo se passa com as amenidades e os constrangimentos do local antigo, que a extensão do espaço urbano, a partir do século XIX, tendeu a tapar, apagar e fazer esquecer: quem presta hoje atenção à etimologia campestre dos nomes de cidades? Também nos interrogamos sobre a especificidade da cidade – e da pequena cidade – no ambiente de montanha (Fray, Cornu, Fournier, 2013) ligado a vastas florestas ou, ainda, assente nas bordas dos cursos de água, lagos ou lagoas, pântanos e outras zonas aquosas ou húmidas.

Os estudos relativos à poluição urbana são mais numerosos: a questão dos resíduos urbanos foi abordada com especial ênfase para períodos recentes e nas grandes cidades e, em menor grau, para épocas mais antigas e unidades urbanas reduzidas; para estas últimas, as hipóteses de reciclagem transformam certos resíduos mais numa oportunidade do que numa ameaça. Também se voltaram a questionar tanto o estatuto como a utilização dos baldios urbanos, os «vazios». E poderíamos, com razão, interrogar-nos sobre se a categoria «pequenas cidades» também se submete à dialética do miasma e do narciso! (Corbin, 1982).

A industrialização e a criação de redes técnicas (água, transporte, comunicação, luz, evacuação de resíduos …) tiveram um similar impacto nas pequenas cidades e nas grandes aglomerações? Quanto à poluição industrial, e às políticas que visam controlá-la, deveríamos focar a nossa atenção nos casos de várias implantações industriais nas pequenas cidades e nos exemplos de recriações – muitas vezes ex nihilo – ou de transformações de /em cidades mono industriais (Bernhardt, Massard-Guilbaud, 2002). Mas nem todas as cidades se tornaram industriais, mesmo na época contemporânea, como as unidades urbanas, muitas vezes de dimensão modesta, que se mantêm como centros administrativos e terciários, cidades mercados, cidades clericais, cidades termais e de cura.

A partir das propostas de Rosen, Tarr (1994) e Tarr (2001), indicamos quatro eixos de investigação:

o impacto das cidades no ambiente natural e cultural, nomeadamente pelo efeito da predação: extração de pedra, madeira, areia …, captação de águas, exigências de mercado alimentar urbano e suas consequências sobre a paisagem agrária envolvente, impactos dos escoamentos (nomeadamente efluentes). As interrogações sobre o microclima urbano, cruciais na reflexão dos urbanistas e higienistas, aplicam-se às pequenas cidades?

o impacto do ambiente natural nas cidades, outrora equacionado por Lucien Febvre (Febvre, 1922): balanço das amenidades e constrangimentos, excluindo todo o determinismo natural e podendo, assim, o mesmo elemento físico ou biológico mostrar-se ora positivo ora negativo; presença na cidade (independentemente da vontade humana ou por escolha deliberada) da flora e da fauna.

as respostas societais às mudanças e aos problemas ambientais no meio urbano: o medievalista Jean-Pierre Leguay (Leguay, 1999) e os modernistas de Clermont (Fournier, 2001) contribuíram para lutar contra a tese, durante muito tempo predominante e alimentada pela vastidão de estudos sobre os séculos XIX e XX, segundo a qual as noções de saneamento e salubridade pública datariam de Setecentos e a história da luta contra a poluição decorria da Revolução industrial. Estes autores fizeram recuar o nascimento das políticas públicas de salubridade ao século XIV, época marcada pela peste no Ocidente e por uma degradação das condições sanitárias nas cidades (Guillermé, 1990). Para períodos mais recentes, pode perguntar-se se o ruído dos ateliers urbanos, depois das fábricas (em primeiro lugar a química industrial) se põem nos mesmos termos – em matéria de política municipal de poluição – nas grandes cidades e nas pequenas; tal como a intensidade dos fenómenos poluentes, a capacidade de mobilização do corpo social, as relações de poder entre artesãos /industrias de uma parte e habitantes da outra, o posicionamento dos notáveis municipais.

os aspetos ambientais das relações das cidades com a área periurbana e, eventualmente, com a sua área de influência. Exemplifiquemos com a cidade medieval dinamarquesa, depois pomerana, de Wollin, situada numa ilha báltica, na embocadura do Oder, que conheceu um forte desenvolvimento comercial entre os séculos X e XII: o crescimento da população (até 8000 habitantes) transformou a cidade numa das mais populosas da Europa do Norte, à época. Mas a insularidade, favorável para captar as correntes comerciais, transforma-se em desvantagem face à pressão demográfica e ao esgotamento dos recursos locais, em particular madeira e grãos. Desde o século XI, a 250 km a este, começa o crescimento de Dantzig/ Gdansk, sustentado em recursos florestais, suplantando um século mais tarde a sua rival (Quenet, 2014, p. 165-6).

Convidam-se os investigadores a apresentar propostas de painéis ou comunicações individuais, abordando estas problemáticas.

Bibliografia de referência

  • Bernhardt, 2001: Christoph Bernhardt (ed.), Environmental Problems in European Cities in the 19th and 20th Century / Umweltprobleme in europäischen Städten des 19. und 20. Jahrhunderts, Münster-New-York : Waxmann, 2001).
  • Bernhardt, Massard-Guilbaud, 2002 : Christoph Bernhardt, Geneviève Massard-Guilbaud (eds.), The Modern Demon : Pollution in Urban and Industrial European Cities, Clermont-Ferrand: Presses Universitaires Blaise Pascal, 2002.
  • Burke, Pommeranz, 2009 : Edmund Burke III, Kenneth Pomeranz (eds.), The Environment and World History, Berkeley: University of California Press, 2009.
  • Clark, 1995: Peter Clark (ed.), Small Towns in early Modern Europe, Cambridge: Cambridge University Press, 1995.
  • Corbin, 1982 : Alain Corbin, Le miasme et la jonquille. L’odorat et l’imaginaire social, Paris : Aubier-Montaigne, 1982.
  • Costa, Andrade, Tente, 2017: Adelaide Millán da Costa, Amélia Aguiar Andrade, Catarina Tente (eds.), O papel das pequenas cidades na construção da Europa medieval, Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, 2017.
  • Deligne, 2003 : Chloé Deligne, Bruxelles et sa rivière. Genèse d’un territoire urbain, XIIe-XVIIIe siècle, Turnhout : Brepols, 2003.
  • Febvre, 1922 : Lucien Febvre, La Terre et l’évolution humaine, Paris, 1922, quatrième partie, chapitre III : « Les villes ».
  • Fournier, 2001 : Patrick Fournier (dir.), Assainissement et salubrité publique en Europe méridionale : fin du Moyen Âge, époque moderne, Siècles. Cahiers du Cendre d’Histoire « Espaces et Cultures », n° 14, 2001.
  • Fournier, 2007 : Patrick Fournier, « La ville au milieu des marais (XVIIe et XVIIIe siècles). Discours théoriques et pratiques de l’espace », Histoire urbaine, n° 18-1 (2007), p. 23-40.
  • Fray, 2006: Jean-Luc Fray, Villes et bourgs de Lorraine : réseaux urbains et centralité au Moyen Âge, Clermont-Ferrand : Presses Universitaires Blaise Pascal, 2006.
  • Fray, Cornu, Fournier, 2013 : Jean-Luc Fray, Pierre Cornu, Patrick Fournier (eds.), Petites villes de montagne de l’Antiquité au XXe siècle. Europe occidentale et centrale, Clermont-Ferrand : Presses Universitaires Blaise Pascal, 2013.
  • Fressoz et alii, 2014: Jean-Baptiste Fressoz, Frédéric Garber, Fabien Locher, Grégory Quénet, Introduction à l’histoire environnementale, Paris: La Découverte, 2014.
  • Guillermé, 1990 : André Guillermé, Les temps de l’eau. La cité, l’eau et les techniques, Seyssel : Champ Vallon, 1990.
  • Guimarães, Amorim, 2016: Paulo Eduardo Guimarães; Inês Amorim, «A História Ambiental em Portugal. A emergência de um novo campo historiográfico». Revista Internacional de Ciencias Sociales. Historia ambiental en Europa y América Latina: miradas cruzadas (coord.) Juan Diego Pérez Cebada et Adrián Gustavo Zarrilli, nº 35, 2016, pp. 47-58
  • Hoffmann, 2014: Richard C. Hoffmann, An Environmental History of Medieval Europe, Cambridge : Cambridge University Press, 2014.
  • Massard-Guilbaud, 2007 : Geneviève Massard-Guilbaud (dir.), « Villes et environnement », Revue d’Histoire Urbaine, n° 18-1 (2007).
  • Massard-Guilbaud, 2010 : Geneviève Massard-Guilbaud, Histoire de la pollution industrielle. France, 1789-1914, Paris : Editions de l’EHESS, 2010.
  • Melosi, 1993: Martin Melosi, « The place of the city in environmental history », Environmental History Review, 17-1 (1993), p. 1-23.
  • Mouthon, 2017 : Fabrice Mouthon, Le sourire de Prométhée. L’homme et la nature au Moyen Âge, Paris : La Découverte, 2017.
  • Ortega, 2016: Antonio Ortega Santos « Mirando desde el futuro. Diálogos y saberes ambientales en el contexto español». Revista Internacional de Ciencias Sociales. Historia ambiental en Europa y América Latina: miradas cruzadas (coord.) Juan Diego Pérez Cebada et Adrián Gustavo Zarrilli, nº 35, 2016, pp. 61-73.
  • Poussou, Loupès, 1987 : Jean-Pierre Poussou, Philippe Loupès (dir.), Les petites villes du Moyen Âge à nos jours. Actes du colloque international de Bordeaux (25-26 octobre 1985) en hommage à Georges Dupeux, Paris-Bordeaux : Editions du CNRS, 1987.
  • Quénet, 2014 : Grégory Quénet, Qu’est-ce que l’histoire environnementale. L’environnement a une histoire, Seyssel: Champ Vallon, 2014.
  • Radkau, 2000 : Joachim Radkau, Natur und Macht. Eine Weltgeschichte der Umwelt, Munich : C. H. Beck, 2000 (trad. angl.: Nature and Power. A Global History of the Environment, Cambridge: Cambridge University Press, 2008).
  • Rosen, Tarr, 1994: Christine M. Rosen, Joel A. Tarr, « The importance of an urban perspective in environmental history », Journal of Urban History, n° 20-3 (mai 1994), p. 299-310 [citado em Quénet, 2014, p. 154].
  • Tarr, 2001: Joel A. Tarr, « Urban history and environmental history in the United States: complementary and overlapping fields », in: Bernhardt et Massard-Guilbaud, 2001, p. 25-39.